Aqueles que dançam são considerados loucos por quem não consegue ouvir a música!

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”, escreveu o filósofo Friedrich Nietzsche.

Algumas pessoas são julgadas e condenadas por suas atitudes, porque os que julgam, não conseguem enxergar a grandeza daquilo que condenam.

Tenho uma paixão pelas montanhas e sinto que grande parte das pessoas me considera louco por andar durante horas e dias, enfrentando todo tipo de dificuldade.

Percebo que aqueles que se sentem maravilhados pela possibilidade de conquistar uma montanha íngreme, não são compreendidos por quem prefere a facilidade das planícies.

Pensam aqueles que preferem as facilidades da vida, que querer enfrentar as ranhuras e as adversidades da subida é coisa de gente louca e desprovida de inteligência. E julgam essa aventura como sendo coisa de “bicho grilo”, “falta de trabalho”, ou de “responsabilidade”.

Mas poucos sabem o quanto uma montanha exige de nós.

Quem não entende a beleza que há em vencer as próprias limitações e não sente no coração esta força estranha que exalta aqueles “loucos” para cima … Nunca vai conseguir ouvir a música que eles dançam.

Esses, com certeza, não conseguirão ouvir a música que toca a alma ao se alcançar o cume.

Com o crescimento das cidades, nos isolamos da natureza, mas as montanhas nos chamaram de volta.

Há apenas 3 séculos, aqueles primeiros que se prepararam para escalar uma montanha foram considerados loucos. A maioria pensava que aqueles que se enfiavam em locais remotos e preferiam estar em ermas paisagens do que enfrentar o burburinho das cidades, eram movidos pela vontade de viver perigosamente, quando na verdade, aqueles que se jogam ao desconhecido, apenas desejam fazer parte da preciosidade que existe no interior dos territórios inabitados. É como encontrar um diamante bruto.

Montanhas eram lugares de perigo, não de beleza. Um mundo aterrorizante a ser evitado, e não desbravado.

Muitos julgavam e ainda julgam aqueles que as conquistam como pessoas que possuem dificuldade em viver em sociedade.

Mas o que não sabem é que para esses humanos, as montanhas altas são consideradas o lar do que é sagrado ou hostil. O que a maioria desconhece é que aqueles que vivem procurando uma nova rota são aqueles que mais conseguem entender os seus labirintos internos.

Quem julga, não consegue entender quem se joga na conquista de um monte, ou quem abre novas trilhas em matas remotas, pois possuem grande dificuldade em entender a eles mesmos. São rasos e não gostam de mergulhar fundo em suas emoções.

Já quem ama subir, descer, e desbravar são aqueles que aprendem mais rapidamente a trilhar novos caminhos e a superar os desafios da vida. Porque as montanhas que escalam fisicamente não são apenas feitas de rocha e gelo, são na verdade feitas de sonhos e desejos.

Essas montanhas que escalam, esses desafios que superam, são as montanhas da mente. Não existe nada além.

Para quem prefere olhar para cima e apenas admirar sua grandiosidade, somente deuses e monstros podem residir em tamanha altura. Por isso sempre preferem manter uma distância segura.

A vida diária já é demasiadamente difícil e perigosa para eles.

Para quê, então, buscar mais dificuldades, dores e sofrimentos?

É o que pensam…

Por isso, não conseguem escutar a música.

“Mas os loucos estão se multiplicando e expulsaram os deuses e os monstros do cume”, e os acolheram dentro deles, com o intuito de se conhecerem e se transformarem em pessoas melhores e mais confiantes, com o poder de entender, respeitar e trabalhar as suas emoções.

O fascínio substituiu o medo. A aventura substituiu a reverencia. E a conquista se fez necessária.

“A magia das montanhas se intensificou. E literalmente nos abduziu. Quem sobe uma vez, nunca mais a deixa.

Sua extrema beleza, seu poder de encanto, seu desafio físico e mental nos leva a uma mistura inebriante de prazer e terror, que acabamos achando sublime”. E essa busca pelo sublime nos leva ao encontro do que é sublime em nós.

Os grandes picos do mundo começaram a exercer uma força em nós além da imaginação de um simples mortal. “Como uma canção de sereia, fácil de ouvir, mas difícil de resistir e, às vezes, fatal”.

Mas o medo que eles causam naqueles que criticam, é proporcional à sedução causada naqueles que os enfrentam.

Viajar aos cumes altos é superar um limite. É mergulhar em um espaço/tempo diferente que meche com as estruturas internas, exige esforço e dedicação, e ensina a quem se dispõe a entender as suas sensações mais intensas.

As montanhas nos ensinam a encarar os próprios medos, os monstros internos e a encontrar a nossa própria divindade.

Nossas peregrinações ainda são consideradas estranhas.

Consideram estranhas as devoções as quais nos submetemos.

“Que espetáculo curioso fazemos tendo as montanhas como nosso teatro”…

Para certas pessoas o chamado da aventura é irresistível. Ouvir a música é fácil. O risco tornou-se a própria recompensa. Quando se trata de altura, não existe limite…. Alguns nunca se sentirão tão vivos como quando percebem que, a qualquer instante, poderão morrer. Os aventureiros de hoje são atraídos pelo luxo de chegar a um lugar onde ninguém jamais esteve… e fazer algo que ninguém nunca fez.

Muitos que viajam ao topo das montanhas estão meio apaixonados por si e meio apaixonados pelo esquecimento.

A maioria daqueles que praticam o montanhismo possuem o objetivo de conquistar o Everest, onde o desejo de testar os próprios limites … ou enfrentar os próprios demônios… atrai milhares de pessoas ao pico todo os anos.

As montanhas são bem mais do que um desafio… ou do que um adversário a ser superado … pois as montanhas humilham o instinto humano e revelam a nossa insignificância.

Elas observaram a nossa chegada. E verão a nossa partida.

Nascida do fogo e da força, as montanhas se movem. Elas ascendem e desmoronam em épocas geológicas. Esta é a sinfonia da terra. A música que dançamos, e que muitos não conseguem ouvir.

Um ritmo de ascensão e erosão que não gera ondas de água… e sim ondas de rocha. E a vida flui por essas ondas de rocha.

Quem já esteve nas montanhas conhece a sua indiferença, e tem uma breve noção, do desinteresse do mundo por nós.

Em pequenas porções, este sentimento revigora. Em exagero, aniquila.

Voltar para a terra depois de conquistar cumes altíssimos faz com que nos sintamos estranhos porque passamos por experiências que vão além da expressão e do que o dinheiro pode pagar.

O tempo parece ter passado diferente, voou por nós, mas deixou a nossa sombra lá trás.

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As montanhas não desejam nada de nós, nem nossa vida, nem nossa morte… elas não querem nada de nós. Mas, mesmo assim, elas mudam a forma como nos vemos.

Elas nos suportam e burilam o nosso espirito, desafiam a nossa arrogância e nos conduzem para dentro dos nossos mais íntimos pensamentos e das nossas mais confusas emoções, aquelas que muitos insistem em passar a vida escondendo de si e do mundo.

Mais do que nunca, precisamos dela, pois só quem tem coragem para assumir riscos, consegue receber o presente que vem com a sua conquista. E esse presente é poder sair dançando, mesmo que nos considerem loucos, ainda assim, dançaremos, porque entendemos que eles ainda não conseguem ouvir a música.

Quer tentar ouvir a música? Assista esse clipe do Viajando a pé e te desafio a tentar ficar parado! Se tentar muito, vai pelo menos balançar a cabeça para cima e para baixo rs, é esse o espírito!

Baseado no Documentário Mountain, disponível na Netflix.

**Texto e vídeo produzidos por TOM VIAJANDO A PÉ – Revisão e adaptação Iara Fonseca . Juntos no VIAJANDO A PÉ

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