Um espaço vazio não pode ser preenchido com mais vazio. Chega uma época em que começamos a nos achar chatos. Temos a convicção que estamos ficando velhos, ou até mesmo entrando em uma espécie de depressão.

Tudo parece ter perdido a enorme graça que tinha até então.

Cansamos das companhias que não nos agregam nada, daquele pessoal que sabemos que só existe nas festas, nos feriados e quando a maré tá boa.

Nos sentimos profundamente decepcionados ao descobrir, que essa galera aí é bem grande… e até gente que jurávamos conhecer e pensávamos que eram nossos amigos para qualquer hora, na verdade, não são tão parceiros assim.

E aí…começamos a nos fechar. Em um lamuriento e apertado casulinho.

Aí…as baladas começam a perder a graça; os beijos cheios de atração física mas sem a menor conexão com a alma, perdem o sabor. Os papos tão profundos como poças d´água não nos motivam mais a sair de casa…
É…nos tornamos PREGUIÇOSOS.

Preguiçosos de gente tão igual; de estarmos rodeados de gente e profundamente solitários; de trocar fluídos corporais, mas a alma continuar carente; os neurônios continuarem ansiosos por algo ou alguém que prenda a atenção por mais de meia hora.

Pronto. Agora temos a certeza que não nos encaixamos mais nesse mundo.

Estamos chatos!

Nos importamos demais com as dores alheias, sofremos com elas, tentamos nos abster.

Começamos a valorizar o que nossos pais diziam a vida inteira…

Passamos a preferir a nossa sincera e própria companhia, à mil presenças falsas por aí.

De repente, nosso casulo vira nosso mundo particular. E começamos a desenvolver até certa simpatia por ele.

Aos poucos perde-se o ar de lamúria e ganha status de LAR.

Já que o mundo aí fora não nos acolhe mais, fiquemos quietos no mundo aqui dentro.

Recusamos convites que sabemos que não nos acrescentará nada de interessante; dispensamos gente que não preencherá os desejos do coração.

Então…as lembranças passam a nos fazer companhia.

Por onde estará aquele namoradinho (a) da juventude, que nos tinha tanto amor? Ah…como fomos bobos por não saber valorizar.

Onde está nossa vizinha que era nossa melhor amiga? Que saudade das nossas conversas!

Mãe…posso passar o fim de semana com você?

Pai? Você tem tempo para uma conversa fiada?

Feliz de quem ainda os tem, quando as fichas começam a cair.

Eu, daria tudo e qualquer coisa, por mais um abraço e um churrasco com meu pai…

Nós, que até então lutamos tão bravamente para sermos independentes, para abrirmos nossas asas e nos jogarmos no mundo…agora, com os olhos marejados, desejamos com todas as forças ter para onde voltar. Um abraço no final do dia; um beijo na testa de boa noite. Alguém para nos ligar. Quem nos receba sorrindo na noite de Natal… quem nos receba no colo, sem nada perguntar.

Quem fique na manhã seguinte; e em todas as outras manhãs seguintes, por todo o resto de nossas vidas.

A tal da independência perdeu um pouco o glamour. Parece que cansamos de lutar.

O Mundo, perdeu um pouco a graça e se pudéssemos, gostaríamos de voltar à infância, ao nosso quarto apertado, dividido com os irmãos.

Passamos a apreciar coisas tão triviais…almoços de domingo. Mesa posta. Toalhas limpas. Roupas de cama confortáveis. PAZ.

SOSSEGO.

AMOR.

AMIZADE.

SEGURANÇA.

CONFIANÇA.

LEALDADE.

Coisas que esquecemos nas nossas andanças Vida afora.

Saudade dos avós…Ah! Como é bom reunir a família e rever os primos.

Como é bom sentir-se protegido.

Estamos velhos mesmo… Trocamos os bailes de carnaval por jantar a dois; 15 moças ou rapazes bonitos, por 1 ser humano só.

E àquela vontade de bater as asas fortemente, começa a se transformar em vontade de criar…raiz.

Filhos, passam a ser um bom projeto, que nos aquece o coração.

Comprar um sitiozinho no interior para descansar, realmente, uma ótima opção.

Trocar o carro para um maior, para poder acompanhar os pais nas consultas rotineiras e para poder levar todas as tralhas da família nas próximas férias. Quem sabe mudar para mais perto?

Cultivar plantas em casa para melhorar o ar.

Acordar mais cedo…Apreciar o dia.

Diminuir as doses de vodka e a quantidade de gordura ingerida…afinal, o tal do futuro…chegou. Os anos passaram.

E o mundo lá fora?

Quando ocorre esse despertar da consciência, para tudo o que realmente tem grande valor nessa vida, é normal que fechemos nossos olhos a tudo que é supérfluo.

É literalmente uma necessidade do espírito, de buscar por elevação, por cuidados maiores; se preservar.

E quando entramos nesse processo muita gente se afasta, muita coisa perde o sentido, é o fluxo natural.

Não nos contentamos mais em viver na superfície.

Não nos contentamos mais em seguir o bando; o baile.

Não nos contentamos mais em viver de aparências…nos chamamos na chincha. É hora do despertar.

Isso tudo acontece porque é impossível preencher os espaços vazios de uma alma, de uma mente tão gigante, de um coração que pulsa, com mais vazio.

É um processo por vezes doloroso.

É um caminhar solitário.

Mas, quando atravessamos e despertamos para dentro de nós, o Universo então começa a nos trazer tudo aquilo que é REAL; contundente. Concreto. Vitalício. Tudo que irá se perpetuar.

Não tenha medo. Vá no seu tempo. Respeite o processo. Respire.

Você está começando a preencher seus espaços vazios.

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Bruna Stamato
"Mãe, mulher, geminiana, maluca e uma eterna sonhadora!"