Estava cansada de juntar meus cacos, para me sentir inteira!

Estava profundamente cansada: da indiferença, do descaso, da falta de carinhos, da ausência de beijos e abraços.

Da rotina puxada, dos vários papéis, do marasmo.

Sentia que merecia mais. Queria dançar, diferentes músicas e ritmos.

Sozinha ou em par.

Um par que somasse, que quisesse ao meu lado estar… de verdade, que me oferecesse mais que uma vida morna, com domingos intermináveis.

Estava profundamente desgastada: da jornada, da morada, dos pensamentos revirados e do turbilhão de emoções que engasgavam, deixando na boca um gosto amargo de uma bebida forte que despejava com frequência em uma taça.

Sentia que estava anestesiada.

A dor já não era a mesma de antes. Já estava acostumada com a sua presença. Já eramos amigas. Íntimas. Tínhamos ínfimas diferenças.

Estava profundamente exausta: da mesmice, do toque superficial, dos compromissos e acordos, dos contratos e dissabores, dos amores que não vivi.

Do medo que me consumia, da cama cheia e ao mesmo tempo vazia.

De me sentir só entre tantos. De não me reconhecer.

Das noites que adormeci aos prantos. De não contemplar entardeceres. De apenas existir e não viver.

Estava profundamente arrependida: das escolhas que protelei, dos lugares por onde andei, de me arrastar por multidões disfarçando o descontentamento.

De não ser minha prioridade, de sentir tanta saudade, daquilo que não ousei experimentar.

De deleitar-me, lambuzar-me de desejos, de anseios. As bagagens que carregava eram pesadas demais. Ou será eu, que estava enfraquecida?

Estava profundamente insatisfeita: incompreendida, incompreensível, introspectiva, incógnita indecifrável.

Com os aborrecimentos, julgamentos, hesitações, reprovações, privações.

Do faz de conta. De fazer as contas, de quantos planos fiz e não realizei. Das noites de insônia, das mágoas amarrotadas, da ingenuidade descompassada, do coração que teimava em se atrever.

Das migalhas que eram lançadas.

Estava profundamente indecisa: reprimida, acorrentada, algemada na incapacidade de mudar.

Estava carente, descontente, de saco cheio de sorrir por entre os dentes.

Esgotada, física e emocionalmente.

Tinha uma interminável ressaca, sem ter bebido, brindava de pijama pela casa aos amores que viraram amigos.

As vírgulas, interrogações, três pontos que deixam histórias subtendidas, os pontos finais, tudo isso irritava.

Queria viver em exclamação. Intensamente. Corpo e mente.

Estava profundamente cansada: “cansada de dar o máximo e não receber metade”, Rashid.

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Karol Pinto
Jornalista, balzaquiana, apaixonada pela escrita e por histórias. Alguém que acredita que escrever é verbalizar o que alma sente e que toda personagem é digna de ter sua experiência relatada e compartilhada. Uma alma que procura sua eterna construção. Uma mulher em constante formação. Uma sonhadora nata. Uma escritora que busca transcrever o que fica nas entrelinhas e que vibra quando consegue lançar no papel muito mais que ideias, mas sim, essências e verdades. Um DNA composto por papel e tinta.