Nossa ferida, quando permanece aberta, nos impede de agir em direção aos nossos mais significativos sonhos, ou nos faz percorrer estradas, um tanto quanto nebulosas, até que consigamos alcançá-los.

Não que não seja impossível realizar um sonho quando uma ferida ainda permanece aberta. Algumas pessoas conseguem porque aprenderam a fazer, dessas feridas, fios condutores para a motivação interna.

É como se disséssemos para nós mesmos:”Eu vou conseguir, independente disso!”.

É como se as feridas nos desafiassem a conquistar o nosso lugar no mundo e nos motivassem a encontrar meios para persegui-los.

Essa atitude nasce naqueles que conseguem perdoar com mais facilidade!

Poucos conseguem retirar essa força das próprias feridas internas. A maioria de nós, cai na fragilidade emocional advinda delas.

Essa fragilidade esconde uma dor ferrenha, uma insatisfação constante, um medo do desconhecido, um temor incontrolável de que algo ruim volte a acontecer, e esse sentimento negativo impregnado nos desestabiliza, gera revolta, descrença, nos faz vulneráveis, e acaba impedindo que nos coloquemos em ação.

Quando nos sentimos impotentes frente aos acontecimentos que nos acometem, e nos fragilizamos, acabamos contribuindo para que novas feridas se abram. E aos poucos nos envolvemos em situações que mais parecem repetições daquelas, que nos fizeram sofrer no passado.

Certamente, perdoar não mudará o nosso passado, mas melhorá significativamente, o nosso futuro!

Um exemplo simples: se mantemos em nós as lembranças de um passado sofrido com os nossos pais, ou familiares, mais precisamente quando não estabelecemos sentimentos de afeto verdadeiros com um deles, pai ou mãe, e não sentimos necessidade de perdoar, ou não conseguimos, com o passar dos anos, vamos jogando areia nessas lembranças, e fingindo que elas não ferem mais, ao ponto de praticamente esquecê-las. Mas elas permanecem ali, alojadas no peito, como se estivessem congeladas, só esperando uma mudança brusca na temperatura, para derreter e jorrar como um vulcão em pleno funcionamento!

Alguns, se consomem na raiva e se encarregam de mantê-las vivas, as alimentando de quando em vez, e demonstrando em palavras e atitudes toda a sua ira, e a sua incapacidade em perdoar.

Outros gostam de fingir que nada aconteceu e que não guardam nenhuma mágoa dentro de si, só para não ter que lidar com a própria dificuldade em perdoar. E acabam mimando a sua criança ferida, negando a dor que ela ainda sente, mesmo na solidão e no vazio que penumbra os seus pensamentos.

Tantos outros, vivem a repetir as mesmas ações que lhes feriram no passado, sem que se conscientizem que as repetem, fazendo sofrer aqueles com quem convivem, da mesma forma que sofreram tempos atrás.

E repetimos, todos nós repetimos! Uns mais, outros menos, inconscientemente, ou consciente, mas a grande verdade é que a maioria não consegue aprender com os dessabores da vida.

E quando não aprendermos com as lições que a vida se encarrega de nos enviar, acabaremos sempre vivenciando novas situações completamente semelhantes as que nos feriram no passado, para que nos atentemos para a necessidade de aprendizado imediato.

Se a nossa infância ainda replete prejuízos na vida adulta, se nos sentimos negligenciados, abandonados, postos de lado, e não perdoamos, apenas aprendemos a conviver com a recordação inconsciente desses fatos, essa falta de perdão real refletirá diretamente nas relações que alimentamos agora.

A falta de perdão faz com que nos envolvamos com parceiros que nos faça sentir o que sentimos quando crianças, ou seja, abandonadas. E esse ciclo permanece até que decidamos encarar essas dores de frente, até que nos coloquemos humildemente no lugar do outro, até que aceitemos com amor e passemos a entender que quem nos feriu na infância, o fez por conta das suas fortes limitações, e não conseguiria, naquele momento, fazer melhor.

Portanto: PERDOE!

Mas não fazemos isso! Pelo menos a maioria de nós não faz.

Presos nessa teia de bloqueios internos, vamos nos prendendo mais e mais, até sermos devorados pela aranha faminta que nos persegue, e nos envolve, até nos sufocar por completo! Essa aranha FAMINTA é a falta de perdão!

Uma aranha indomável e impiedosa.

Ela não nos perdoa, pois não conseguimos perdoar também! Por isso, ela não se compadece com o nosso choro, e nem com o clamor de nossas orações.

Para nos desprender da sua teia será necessário que nos transformemos, que aprendamos a equilibrar as nossas emoções, que dissolvamos nossos medos, angustias, preconceitos, e principalmente que aprendamos a exercer com primor o perdão.

A única maneira de conseguirmos nos desvencilhar dessa teia tão bem arquitetada que nos leva a alimentar sentimentos devastadores durante toda a vida, é aprendendo a perdoar todos aqueles que nos fizeram mal, e também aprendendo a nos perdoar por tudo que fizemos aos outros e a nós mesmos.

Mas também não fazemos isso, ficamos nos justificando constantemente, em atos involuntários de defesa.

Dizemos: “Eu não consigo por causa disso”, “Eu não faço por causa daquilo”, “Eu só fiz isso porque me fizeram aquilo”.

E passamos a temer quase tudo, nos colocando como vítimas de um ato desleal ou de um desamor que nos impuseram.

Enquanto nos enxergarmos como vítimas, enquanto não encararmos os fatos e o motivo pelo qual tivemos que passar por eles, enquanto não aprendermos a lição que nos foi imposta pela vida, patinaremos por uma estrada escorregadia, que a carapaça do orgulho nunca nos permitirá que nos mantenhamos em pé. Serão tombos, e mais tombos!

O perdão é um santo remédio para as dores da alma.

Muitos não conseguem entender os motivos e os porquês que muitas coisas acontecem, e por conta disso, se martirizam.

A perda de um filho em N situações desastrosas, a dor dilacerante que isso gera, a saudade, a mágoa, a descrença, a desesperança…

A separação por conta de traições humilhantes, e a ferida que se abre, a sensação de impotência, a descrença no ser humano, o golpe no amor próprio…

Não entendemos e temos dificuldades em aceitar as injustiças que sofremos, muitas vezes, sem que tomemos consciência do que fizemos para merecer tamanha ingratidão…

… Esses, são apenas alguns exemplos! Essas feridas que se abrem são extremamente difíceis de cicatrizar!

Perdoemos e sigamos em paz!

A gente se pergunta: “Como posso perdoar o motorista bêbado que atropelou o meu filho e o levou a óbito?”; “Como posso confiar em Deus depois disso tudo?”; “Onde Deus estava no momento em que meu filho mais precisou? Ele era apenas uma criança e sofreu enfermidades severas!”.

Ou então: “Eu sempre fiz tudo pelo meu marido(esposa), ofereci todo o meu amor, o meu tempo, a minha vida, fui fiel, e amiga(o), e ele(a) me traiu, sem dó nem piedade, destruiu nossa família, e fez sofrer a mim e aos nossos filhos! Como posso perdoar todo mal que nos causou?”.

Muitos não conseguem perdoar os próprios pais, sentem uma dor tão profunda na alma, uma mágoa que se transforma em aversão, e gera conflitos constantes, e impede completamente qualquer possibilidade de entendimento e aceitação.

A vida é uma ferida aberta, que só cicatriza com o perdão.

Nunca entenderemos os motivos pelos quais tivemos que passar pelo que passamos, mas uma coisa é certa, nenhum de nós somos vítimas de nada.

Só de estarmos aqui, vivos, convivendo com inúmeros insanos, mas com muitas almas bondosas também, compartilhando nossa insanidade e bondade, e aprendendo com a insanidade e bondade alheia, já é uma prova de que santos não somos, e nem nunca fomos.

Carregamos sentimentos e emoções ainda primitivas, e algumas situações são impostas pela vida para que possamos trabalhar essas limitações que ainda carregamos, de maneira que consigamos nos reformar internamente.

Algumas lições dolorosas se apresentam para que possamos atentar para a necessidade de desenvolvermos a humildade, por exemplo.

Outras para que trabalhemos o desapego!

Tantas e quantas, para que aprendamos a amar incondicionalmente e a aceitar e ter compaixão pelas limitações dos outros, para que possamos nos desvencilhar do orgulho e do ego que nos distanciam da caridade, da compaixão e do amor fraternal.

E se não conseguimos aprender na dor, nunca estaremos aptos para aprender no amor!

Assim é a vida!

Um labirinto de possibilidades felizes e tristes! Mas possibilidades, de grande valia para o nosso crescimento e amadurecimento.

Enquanto nos sentirmos injustiçados pela vida, ela se encarregará de colocar em nossos caminhos mais “injustiças”, pois é esse sentimento que nutrimos, é isso que vibramos!

E a nossa vibração revela a nossa vaidade egoísta, o nosso engano em sentir que somos superiores, e que merecíamos vivenciar apenas situações de alegria e comodidades que poucos usufruem.

Achamos que somos melhores que o vizinho, que o amigo, que o chefe, que as outras civilizações e culturas, ou então, achamos o contrário, nos vitimizamos a tal ponto de acharmos que sempre os outros são muito melhores que a gente.

Nenhuma dessas situações nos levam a lugares seguros. Não cicatrizam nossas feridas internas. Apenas fazem surgir outras tantas, e tantas, a ponto de acreditarmos que para o nosso caso não existe remédio.

Uma ferida aberta, inflamada, carrega muitas bactérias que podem ser mortais.

Cicatrize-a com o perdão!

Lave-a com o amor!

Cure-a com a aceitação! E aprenda com as lições felizes e dolorosas que a vida traz.

Não culpe mais ninguém pelo que te aconteceu! Entenda que o outro é um ser humano, cheio de imperfeições como você.

Que cada um carrega a sua história e as suas dores!

Que cada um enfrenta a sua batalha e possui um nível de entendimento diferente sobre as coisas e fatos.

Assuma as responsabilidades que te cabe e aprenda a transformar dor em amor!

Aprenda a perdoar a si e ao outro, e a não responsabilizar Deus pelas coisas ruins que aconteceram, ou que ainda acontecem com você.

Simplesmente aprenda a lição que foi enviada, pois assim que você aprender a se perdoar, e a pedir perdão, você se sentirá mais forte do que nunca, mais saudável e destemida! Pode acreditar!

Creia! Agindo assim, todas as dores cessarão, o mar revolto se acalmará, e no horizonte será possível ver uma luz se acender, trazendo a esperança e a fé, tão necessárias, que te abastecerão com tamanha força interior, que te impulsionarão a seguir em frente!

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Iara Fonseca
Jornalista, poeta, educadora social, fundadora e editora de conteúdo do Rede de Ideias: PRODUÇÃO DE CONTEÚDO. Seu interior é intenso, sempre foi, transforma suas angustias em textos que ajudam muito mais a ela própria do que a quem lê. As vezes se pega relendo seus textos para tentar colocar em prática aquilo que, ela mesma, sabe que é difícil. Acredita que viemos aqui para aprender a ser, a cada dia, um pouco melhor, para si mesmo, e para o outro!